Aproximando-se este tempo forte de conversão da alma ao Senhor, vale a pena ler este sermão de São Leão Magno (o "Leão da Igreja", século IV), em que o santo pontífice expõe a necessidade do combate espiritual, uma verdadeira guerra contra o pecado.
"Há muitas
batalhas dentro de nós: a carne contra o espírito, o espírito contra a carne.
Se, na luta, são os desejos da carne que prevalecem, o espírito será
vergonhosamente rebaixado de sua dignidade própria e isto será uma grande
infelicidade, de rei que deveria ser, torna-se escravo. Se, ao contrário, o
espírito se submete ao seu Senhor, põe sua alegria naquilo que vem do céu,
despreza os atrativos das volúpias terrestres e impede o pecado de reinar sobre
o seu corpo mortal, a razão manterá o cetro que lhe é devido de pleno direito,
nenhuma ilusão dos maus espíritos poderá derrubar seus muros; porque o homem só
tem paz verdadeira e a verdadeira liberdade quando a carne é regida pelo
espírito, seu juiz, e o espírito governado por Deus, seu mestre.
É, sem dúvida, uma
preparação que deve ser feita em todos os tempos: impedir, por uma vigilância
constante, a aproximação dos espertíssimos inimigos. Mas é preciso aperfeiçoar
essa vigilância com ainda mais cuidado, e organizá-la com maior zelo, nesta
época do ano, quando nossos pérfidos inimigos redobram também a astúcia de suas
manobras. Eles sabem muito bem que esses são os dias da santa Quaresma e que
passamos a Quaresma castigando todas as molezas, apagando todas as negligências
do passado; usam então de todo o poder de sua malícia para induzir em alguma
impureza aqueles que querem celebrar a santa Páscoa do Senhor; mudar para
ocasião de pecado o que deveria ser uma fonte de perdão.
Meus caros irmãos,
entramos na Quaresma, isto é, em uma fidelidade maior ao serviço do Senhor. É
como se entrássemos em um combate de santidade. Então preparemos nossas almas
para o combate das tentações e saibamos que quanto mais zelosos formos por nossa
salvação, mais violentamente seremos atacados por nossos adversários. Mas
aquele que habita em nós é mais forte do que aquele que está contra nós. Nossa
força vem d’Aquele em quem pomos nossa confiança. Pois se o Senhor se deixou
tentar pelo tentador foi para que tivéssemos, com a força de seu socorro, o
ensinamento de seu exemplo. Acabaste de ouvi-lo. Ele venceu seu adversário com
as palavras da lei, não pelo poder de sua força: a honra devida a sua
humanidade será maior, maior também a punição de seu adversário se Ele triunfa
sobre o inimigo do gênero humano não como Deus, mas como homem.
Assim, Ele combateu para que combatêssemos como
Ele; Ele venceu para que também nós vencêssemos da mesma forma. Pois, meus
caríssimos irmãos, não há atos de virtude sem a experiência das tentações, a fé
sem a provação, o combate sem um inimigo, a vitória sem uma batalha. A vida se
passa no meio das emboscadas, no meio dos combates. Se não quisermos ser
surpreendidos, é preciso vigiar; se quisermos vencer, é preciso lutar. Eis
porque Salomão, que era sábio, diz: Meu filho, quando entras para o serviço do
Senhor, prepara a tua alma para a tentação (Eclo. 2,1). Cheio da sabedoria de
Deus, sabia que não há fervor sem combate laborioso; prevendo o perigo desses
combates, anunciou-os de antemão para que, advertidos dos ataques do tentador,
estivéssemos preparados para aparar seus golpes."